O avanço do Google na computação quântica.

A afirmação do Google de que a companhia atingiu “supremacia quântica”, estendendo as possibilidades da computação para além de seus limites anteriores de forma decisiva, atraiu atenção de muitas pessoas.

O Google diz que planeja construir um computador quântico plenamente funcional e em grande escala, capaz lidar com tarefas como a produção de modelos analíticos sobre a natureza em seu nível mais básico, ajudar a resolver ‘problemas impossíveis’ e produzir um grande passo avante na inteligência artificial, campo no qual o Google já é visto por muitos como líder mundial.

A declaração destas intenções surgiu do dia 23 de outubro, quando a revista científica Nature publicou um estudo sobre o marco científico estabelecido pelo Google, em que uma máquina construída sob os princípios da mecânica quântica executou um cálculo que, para todos os fins práticos, é impossível até mesmo para o mais poderoso dos computadores “clássicos”.

Sobre a realização deste marco, os pesquisadores da companhia descreveram o trabalho como um ponto de partida que permitirá que saltem à frente, daqui a uma década, para a construção de uma máquina capaz de lidar com questões de importância mundial.

Os engenheiros de hardware no laboratório de pesquisa quântica da companhia em Santa Barbara, Califórnia tem em mente a ideia de dar à humanidade uma nova ferramenta para resolver problemas que de outra forma seriam impossíveis.

As possibilidades mencionadas pelo Google incluem a solução de problemas complexos de otimização de escala imensa, por exemplo, como alocar melhor recursos escassos, e participação no desenvolvimento de novos materiais e medicamentos. Uma esperança é encontrar uma maneira melhor de obter nitrogênio da atmosfera a fim de produzir fertilizante, processo que no momento responde por cerca de 2% do consumo mundial de energia a cada ano.

A estranheza da mecânica quântica, que governa a maneira pela qual as partículas subatômicas se comportam, não deixava claro, anteriormente, se seria possível dominar a tecnologia em um sistema complexo e de grande escala. Mas as pesquisas por trás do estudo publicado na Nature envolviam computação em uma escala milhões de vezes maior do que qualquer coisa tentada antes. O Google deu um salto realmente imenso e acredita que vai funcionar.

Em outro grande avanço, a companhia afirma que os controles desenvolvidos como parte de suas pesquisas eram “compatíveis com futuros avanços”, o que significa que podem ser aplicados a trabalhos envolvendo os sistemas quânticos ainda mais complexos que a empresa espera construir no futuro.

A companhia ainda não começou a trabalhar no desafio mais difícil de todos: O processo de correção de erros que é necessário para limpar os cálculos produzidos por sistemas que são inerentemente instáveis, passo vital rumo à concretização de máquinas realmente resistentes a defeitos.

A companhia também disse que abriria seu sistema a outras organizações que desejem começar a conduzir experiências com programação quântica, ainda que não tenha afirmado quando isso aconteceria ou quantos parceiros seriam admitidos. A empresa já anunciou parcerias com a Daimler Benz,Volkswagen e o Departamento de Energia dos Estados Unidos.

A promessa de atrair um grupo maior de seguidores para sua tecnologia quântica parece destinada a colocar o Google em concorrência mais direta com a IBM, que já montou um grande grupo de pesquisadores em torno de seus sistemas quânticos rudimentares.

A Microsoft também tentou atrair desenvolvedores, por meio de ferramentas de software que permitem que eles comecem a simular programas quânticos em computadores “clássicos” existentes, embora ainda não tenha demonstrado um sistema quântico funcional usando sua versão da tecnologia.

Sundar Pichai, o presidente-executivo do Google, afirmou em um post no site da companhia que ela aplicaria os princípios que desenvolveu para sua inteligência artificial, a fim de garantir que as crescentes capacidades de computação quântica da empresa não fossem usadas de maneira indevida.

Alguns pesquisadores da companhia também declararam que o impacto de seu trabalho provavelmente será mais benéfico por o estarem conduzindo de forma aberta e não em um laboratório governamental secreto.

 

Fonte: Folha de São Paulo